segunda-feira, 28 de junho de 2010

Haicais


Alguns Haicais





foi num tempo cor
em que a vida se deu conta
que era feliz





Em tempo de copa
o esplendor da lua cheia
me faz gritar: Gol!







Essa rua é minha
cheia de pedras azuis
cheiro de fantasma








Ares de canção
em viagens sem retorno
luzes apagadas







Cansei de ser só
no meu corpo estremece
uma outra vida







Nesse palco escuro
apresento minha vida
Aplausos sem dor!



domingo, 27 de junho de 2010

Anos Caetânicos

Anos Caetânicos

Sempre gostei de escrever. Os circuitos pontuados no meu caminho sempre se fizeram pela escrita. Lembro de quando criança gostava de registrar as festas, os bailes num papel como se estivesse escrevendo uma coluna social. Tudo sempre foi engavetado e, algumas vezes, rasgado em pedacinhos que saíam voando fora do meu caminho. Escrevia pra me salvar e me acolher. A tristeza sempre roubando a cena dos momentos alegres. Como só me fosse permitido rabiscar e desenhar as perdas, a fragilidade, a incompreensão da vida. Hoje não. Hoje consigo perceber que todas as minhas andanças na vida são histórias que podem e devem ser contadas.

A fase de paixão por Caetano Veloso a partir dos festivais e do movimento Tropicália foi muito intensa. Ainda me vejo atravessando o jardim São João em Niterói entrando numa pequena loja de discos e comprando aquele vinil (Tropicália) como se fosse uma jóia, uma aquisição preciosa. Saí da loja atracada com ele, num andar firme, rico, poderoso, dona de mim. Aquilo era ser feliz. Chegar em casa, sentar e só ouvir. Ouvir e me arrepiar. Decorar as letras, absorver as melodias... Eu, achando Caetano o homem mais lindo do mundo. O sorriso... Ah, como gosto de sorrisos. Acho que há certas pessoas que não precisam de mais nada a não ser o próprio sorriso. Caetano era assim. Só precisava estar vestido de sorriso. Achava suas roupas lindas, ousadas, a cara de tudo o que eu queria ser... Meus amigos achavam estranha essa paixão. Alguns até desaprovavam. Mas em relação a música ninguém nunca conseguiu me desviar da minha sensibilidade genuína, minha, muito minha.

Assistir um show do Caetano era sempre um êxtase. Uma vez entrei no camarim do Thereza Rachel, falei com ele, entreguei uma música que havia feito e disse: “Se não gostar pode destruir.” Ao que ele me respondeu naquela voz mansa: “Não sei não. Eu não sou de destruir as coisas não.” Essa fala ficou martelando na minha cabeça e gerou um trecho de uma canção que compus.

Quando estava grávida do meu primeiro filho Alexandre, que por sinal é um excelente músico, entrei correndo assim que as portas do teatro se abriram para o show. Tudo isso pra sentar na primeira fila. Esse show assisti duas vezes. Na segunda vez fui com Paulinho (meu amigo até hoje) e nesse dia teve participação especial de Chico Buarque. Tirei muitas fotos e ao final do show eu e Paulinho subimos no palco, pegamos o copo com um restinho de uísque do Chico, bebemos, guardamos a relíquia (que tenho até hoje) e invadimos o camarim. Falamos com Chico, Miúcha, Caetano, pegamos autógrafo e, quando já estávamos saindo, Nisso, uma louca que andava com a gente lascou um selinho no Caetano. Ele foi pego de surpresa e ficou sem ação. Saí de lá rindo, mas no fundo com muita inveja da louca, de não ter feito a mesma coisa. Hoje me lembro disso tudo com muito orgulho por ter podido viver o brilho dessa época. Uma época que, de certa forma, ainda faz parte do meu jeito, do meu andar, do meu dizer... Uma época. Caetânica. Simplesmente Caetânica...



sábado, 26 de junho de 2010



Meu piano, meus amigos...



Às vezes tenho a sensação de que meus amigos são teclas de marfim de um piano que me oferece a possibilidade das mais variadas harmonias. Cada um tem seu som e timbre especiais. Meus ouvidos e minha alma se deixam embalar por acordes suaves. Algumas vezes estremeço com o reconhecimento de canções que andavam adormecidas em mim. Outras vezes viajo em sons dissonantes, estrangeiros e descubro rachaduras em compartimentos descuidados e abandonados. Certos fraseados me deliciam no descontrole das gargalhadas. Viro criança e saio dançando com o vento e o sol. Silencio meus barulhos internos pra estar inteira com o meu piano. Predadores já tentaram roubar algum marfim. Isso doeu muito na minha alma. Com algum trabalho artesanal, delicado, sutil, consegui tecer o talento de reparar tecla por tecla. E resolvi usar uma chave mágica que tranca e destranca quando meu desejo assim o quer. Meus dedos passeiam num bailado singular. Meus amigos criam bemóis, sustenidos e revelam sentidos que legitimam a minha música. Adoro meu piano. Adoro meus amigos.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

haicais


Finalmente fui iniciada na construção de haicai. Conversando com meu amigo poeta Cecchetti mostrei curiosidade e comecei a experimentar. Arrisquei e já consegui produzir alguma coisa. Haicai é um jeito poético e conciso de se expressar. De origem japonesa chegou ao Brasil no início do século 20 e é distribuído em três versos de 5, 7, e 5 sílabas formando assim um terceto. É como um poema fotografia. Andei praticando e como tenho sido aprovada pelo mestre Cecchetti, resolvi postar. Aí vão meus primeiros haicais:



Para meu cão Bruce que já se foi:



Melhor cão do mundo

Bruce abriga um anjo

bom, de quatro patas




Antes do jogo de domingo:



Domingo azul morno

Costa do Marfim Brasil

Torço ou retorço?




:

Num sopro de ar

Uma nuvem te desvela

Lua, lua, lua..



.

Desperta insone

Reinvento sensações

Nuvens de saudades




Costuras de sonhos

Em alinhavos cinzentos

Colcha de retalhos




Neblina gelada.

Gente simples, comunhão

De Nova Friburgo

domingo, 20 de junho de 2010

reflexão...


Sem Nome




Tenho marcado encontros com a vida e não consigo chegar. Parece que existe um atraso inerente ou aderente à minha pele, à minha alma estabelecendo desculpas e descasos com essa questão. Fico estarrecida e muda diante de tons dissonantes que sempre rondaram todos os meus ouvidos. Sim, todos os meus ouvidos. Tenho vários órgãos para cada sentido. E vários sentidos para cada órgão. As esquinas do meu corpo estremecem a cada nitidez desses sentidos. Nesses momentos vejo que não estou só: me habitam tantos seres e eu teimo em me simplificar. Não sou simples nem abstrata. Sou um caos, a desorganização, sou toda manchada de cores e brancos e pretos e cinzas. Sou condenada a não chegar perto desse vendaval. Parece que me arrasto pelas frestas mal iluminadas do meu avesso e não consigo sair do lugar. Preciso de passos mais largos ao invés de dar voltas sobre mim mesma, na mesmice, na repetição, na invalidez da alma. Torço e retorço meu coração e continuo com o sangue enlatado sem jorrar pela vida...

Estou me sentindo um ponto que nem é ponto porque não significa, não consegue significar nem um ponto qualquer nessa lacuna, nesse vazio, nesse sei lá o quê... Preciso encontrar a vida. Urgentemente!

sábado, 19 de junho de 2010

poema...


MEU ENCONTRO COM A PSICANÁLISE




Para Marcos Comaru (meu primeiro professor de Psicanálise) e Denise Blanc ( minha psicanalista) que me possibilitaram continuar fotografando significados nas entrelinhas da vida.





Fui arrombada delicadamente

Por algo novo.

Algo que estava ali

O tempo todo

Mas não se fazia presente

Por conta de cheiros estranhos

Que emanavam de mim

Algo que chegou

Confirmando a tonalidade

Dos meus passos...

Fui penetrada

Num momento de extremo tédio

Abri as pernas

E deixei a alma gozar...

Fui iniciada no prazer

Do sense e nonsense

De tudo e nada...

Fui premiada

Com uma viagem sem volta

Em nuances inimagináveis

Fui arrastada

Por labirintos misteriosos

E estranhos.

Fui batizada,

Assinei um contrato,

Reconheci firmas

De vários desejos,

Atualizei sorrisos

Formatei certas lágrimas,

Sustei uns pecadinhos

E fechei negócio

Com todas as questões do moço

Entrei em cena.

Deus me ajude.

E Freud também.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

um poema...





MAKE(LIFE)UP

Um copo de vinho tinto

Derrete meu andar

Por palcos de sonhos

Construo paredes invisíveis

Traço metas de vôos

Instituo desejos legítimos

De ser feliz

Esbofeteio as cores cinzentas

Estrangulo meus desejos

Numa tentativa de lhes dar vida

Pela morte, pela sufocação

Estendo as possibilidades

De arrepios e tremores

E reencontro

Batons vermelhos e

Rouge carmim

De mim, em mim...