segunda-feira, 31 de maio de 2010

poemas...


FASHION



A vida tem sido

Estilista

Me vestindo de formas

Diversas

Em momentos singulares

Já me vestiu de

Tristeza sem fim

Alegria pueril

Piada sem graça

Dona da verdade

Dona senhora

Senhora tal...

A vida me vestiu

De tanta coisa,

Tantos panos,

Remendos

Cerzidos...

Hoje?

Hoje a vida me veste

Só de plumas, deboches

Ousadias e paetês...

domingo, 30 de maio de 2010

ADEUS...


Mesmo percebendo que tudo aconteceu como já estava anunciado, estou envolta numa certa tristeza. A amiga se foi de vez. Cumpriu sua missão nesse mundo, deixou tudo organizado, partiu em paz com tudo e com todos. Uma névoa de nostalgia tomou conta de mim quando voltei do velório. Fico pensando pra onde vai tanta riqueza de alma. Os livros que ela leu, as reflexões que fez diante dos momentos de adversidade, as perdas, a generosidade com os amigos. Pra onde vai isso tudo? Minha formação cristã não responde essas perguntas. Fico triste por não ver mais seu nome na minha lista de e-mails. Pra onde vai tanta sabedoria? Não sei. Vou ficar com as últimas sensações daquele sábado. Congelar as palavras, as risadas, as citações de livros... E acessar sua presença forte quando tropeçar nas ruas da vida. Valeu amiga!

sábado, 29 de maio de 2010






FAXINA




Todos os dias

inspeciono os cantos

de mim

e tento limpar a poeira

Passo vassourinhas,

paninhos...

Depois dou um brilho de flanela.

Há dias em

que tenho que usar

aspirador de mágoas

que nem sempre funciona.

Entope, enguiça...

Fico tão cansada

e suada nesses momentos

Minha força se esvai

em lágrimas embaçadas

Meu corpo se ressente

e cai doente,

sinto dores imensas

Todo dia eu limpo

Sou faxineira fiel

de mim

Arrasto móveis

arrumo gavetas, desentulho outras

Hoje resolvi descansar

Hoje não limpo,

não lavo,

não aspiro...

Hoje passei na florista

encomendei uma bela

cesta de flores do campo

e mandei entregar ao universo...

A partir de hoje

não limpo, não lavo,

não faço absolutamente nada

que não seja mandar flores...

sexta-feira, 28 de maio de 2010


Uma amiga está partindo. Suavemente. Com dignidade e postura de quem escolheu sempre a vida. Com todos os desafios e dissabores. Ela está indo embora. Quando a conheci me encantei com a sua visão do mundo e dos problemas existenciais. Inteligente, humor sarcástico, poeta de primeira linha, escritora maior , gente, humana, humana... Miúda de corpo, enorme de alma. Nunca ouvi ninguém falar da morte de forma tão viva e natural. Fui visitá-la no sábado passado e voltei mais rica. Hoje estou triste, mas com a certeza da permanência de algo muito valioso. Algo que não se perde e é imune ao tempo: Histórias, risos, filosofia de vida, abraços, encontros, enfrentamento da vida, vida, vida... Só me resta brindar a sua riqueza de ser e estar no mundo. Posto um sorriso.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Ringo


Hoje saí cedinho caminhando pela praia pra levar meu cachorro a veterinária. É muito interessante observar a reação das pessoas diante de um cão bonito e charmoso. Muitas já abrem um sorriso de longe, outras se jogam em cima dele com afagos e até beijos. Acontece também o contrário. Pessoas que amarram a cara e se afastam com medo. Até entendo o medo., mas precisa fechar a cara? Sempre tive uma relação muito boa com cães. Na infância tive uma vira lata chamada Diana. Marrom, peito branco, adorava perseguir bicicletas e carros. Rasgava roupas dos outros e meu pai muitas vezes teve que arcar com essas estrepolias. Tempos depois tive o Sasha que chegou muito novinho e me acordava as seis da manhã pra tomar a mamadeira. E eu naquele frio de Friburgo me agasalhava e ia cuidar do meu bebê com a maior alegria. Passei muitos anos sem cachorro e depois de filhos grandes decidi viver novamente essa rica experiência. Aí chegou o Bruce. Esse merece e terá um capítulo a parte. Esse meu amigo partiu em setembro do ano passado e deixou um vazio imenso. Achei que não teria outro mas a família toda decidiu que não dá pra ficar sem essa rica relação e agora temos o Ringo - outro golden retriever- que é um grande xodó. Apesar da mesma raça do Bruce é outra personalidade. A saudade do outro ainda é grande. Com Ringo estamos construindo uma nova relação de amor.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Alguns pormas meus


POSES

Vejo minha alma destoando
Da foto
Parece que existem duas ou mais
Pessoas em cena
Uma dando lugar à outra,
Disputando poses e olhares
Pra ver quem sai melhor na foto.
O sorriso vira um comercial
Previamente ensaiado e esbranquiçado
O olhar interpreta exatamente
A cena encomendada pelo diretor (interno? )
As luzes determinam
Quantas pessoas vão sair na foto
Há dias em que venho com cinco ou dez
Noutros só tenho uma parceira
Aparecer sozinha depende
De um cachê bastante alto,
Depende de mandar aquela gente toda esperar
Dar atividade pra elas,
Distraí-las,
Suborná-las,
Numa tentativa
De aprisioná-las
Até a entrada
Da próxima cena...
Do próximo espetáculo...
Fecho as cortinas...





RECORTES


Doa a quem doer
Sou cabeça, tronco, membros
Toda prosa
Especial, sob medida
A seus pés
Por transparência,
Vitrine das águas
Todo os caminhos conduzem a
Tanto mar...
Agora?
Amanhã?
será que não dá pra combinar as duas coisas?
A hora do não...
O primeiro sinal verde...
A última gota...
Breve história.






MIX DE SER

Mistura de cores,
ensaios, intenções...
Assim tem sido
Meus passos
Intensos, vazios, descarados,
Mascarados, ousados...
Assim tem sido meu olhar
Focado, cego, nebuloso, claro...
Assim tem sido meu ouvido
Surdo, atento, refinado...
Assim tem sido minha voz
Segura, rouca, muda, gritante...
Assim tem sido meu mundo
Dramático, fantástico, rotineiro,
Real, irreal...
Assim tenho sido eu
Louca, lúcida, válida, inválida,
Sendo, não sendo, sendo, estando,
Indo, vindo, indo, vindo, indo...

terça-feira, 25 de maio de 2010


O ônibus não estava cheio. Me espreguicei, cruzei as pernas e, num gesto ansioso abri o livro. Até que um chorinho de bebê desvia meu olhar para a cena de uma jovem mãe alimentando sua cria. Me chama a atenção a alternância de mensagens e tons de voz dessa figura materna. Uma mistura de “é feio colocar a mão na boca, mamãe já falou, não quero isso...” com “que papinha mais gostosa, neném...”, numa turbulência de intenções totalmente incoerentes para uma pessoinha tão indefesa. Pensar num bebê que recebe tudo sensorialmente tendo que lidar com estímulos tão ambivalentes... Certamente sua história de vida será pautada por muitas dessas incompreensões.

Tive vontade de dizer àquela mãe o quanto um bebê precisa sugar, sujar, morder... Tive vontade, mas não disse. Tive vontade de dizer o quanto é difícil acertar mesmo apostando em toda capacidade de amar. Tive vontade de falar sobre meus erros, minhas incoerências. Olhei com carinho para a criança e pensei no quanto é fácil observar e julgar o outro.

Coloquei uma bala na boca como se quisesse abafar historias presas na garganta, retomei o livro e li até chegar ao meu destino. Peguei minha mala, olhei para a moça, o bebê e, tudo que pude fazer foi pegar suas bolsas, levar até o desembarque e desejar muita saúde e sorte para aquela criança.