sábado, 19 de junho de 2010

poema...


MEU ENCONTRO COM A PSICANÁLISE




Para Marcos Comaru (meu primeiro professor de Psicanálise) e Denise Blanc ( minha psicanalista) que me possibilitaram continuar fotografando significados nas entrelinhas da vida.





Fui arrombada delicadamente

Por algo novo.

Algo que estava ali

O tempo todo

Mas não se fazia presente

Por conta de cheiros estranhos

Que emanavam de mim

Algo que chegou

Confirmando a tonalidade

Dos meus passos...

Fui penetrada

Num momento de extremo tédio

Abri as pernas

E deixei a alma gozar...

Fui iniciada no prazer

Do sense e nonsense

De tudo e nada...

Fui premiada

Com uma viagem sem volta

Em nuances inimagináveis

Fui arrastada

Por labirintos misteriosos

E estranhos.

Fui batizada,

Assinei um contrato,

Reconheci firmas

De vários desejos,

Atualizei sorrisos

Formatei certas lágrimas,

Sustei uns pecadinhos

E fechei negócio

Com todas as questões do moço

Entrei em cena.

Deus me ajude.

E Freud também.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

um poema...





MAKE(LIFE)UP

Um copo de vinho tinto

Derrete meu andar

Por palcos de sonhos

Construo paredes invisíveis

Traço metas de vôos

Instituo desejos legítimos

De ser feliz

Esbofeteio as cores cinzentas

Estrangulo meus desejos

Numa tentativa de lhes dar vida

Pela morte, pela sufocação

Estendo as possibilidades

De arrepios e tremores

E reencontro

Batons vermelhos e

Rouge carmim

De mim, em mim...






quarta-feira, 16 de junho de 2010

Da missa para a Banda


Da missa para a Banda



Era um rapaz simples, despojado de vaidades, desses que a gente vê na rua e identifica como vendedor de enciclopédia ou crente fervoroso. Seu nome tão simples quanto seu jeito de ser. de ir e vir: Inácio.

Não tinha muitos amigos. A não ser os colegas de trabalho da loja de tecidos na Rua da Alfândega. Não passavam de meros colegas, visto que os programas de fim de semana nunca se encaixavam nos seus desejos. A turma já começava a se reunir sábado após o expediente no pagode da esquina regado a churrasquinho e muita cerveja. Inácio não bebia e a única multidão que gostava era a da missa.

Naquele dia, quase véspera de carnaval, ele foi entregar uma encomenda em Ipanema e acabou entrando na igreja pra assistir á missa. Fervoroso que era passou a celebração inteira ajoelhado e tomado por muita emoção. Comungou, cantou todos os hinos e saiu dali de alma lavada e pura.

Ao botar os pés do lado de fora Inácio foi tomado por uma grande surppresa. Deu de cara com a Banda de Ipanema com todas as suas cores e loucuras possíveis. Isabelita dos Patins deslizava coloridamente de um lado pro outro, enquanto purpurinas e paetês subiam aos céus levadas pelo movimento energético daquele grupo.

Inácio, paralisado, não sabia se entrava ou saía. Nessa indecisão foi tomado por um arrepio frio que lhe subia pelos pés, pelas pernas, ganhando força nas genitais e subindo como um vulcão pelo peito.

Inácio explodiu. Arrancou a camisa, abriu o cinto, tirou as calças, amarrou a camisa na cabeça, jogou os sapatos e as meias para o alto e saiu dançando feito louco no meio daquela gente...

Dançou, rebolou, entrou em êxtase, gritou, suou, extravasou...

Uma chuva de verão começou a cair. Inácio se jogou no chão, abriu os braços e deixou que aquela chuva perpassasse sua alma até o gozo da morte, da vida... Inácio voou.


terça-feira, 15 de junho de 2010

copa e cozinha


Nunca fui chegada a copa. Nem a cozinha. Na verdade sempre fui chegada aos sons, às letras , às palavras, ao indizível. Estamos vivendo um tempo de copa do mundo numa sofreguidão absoluta. Pessoas que são certinhas o ano inteiro se vestem de verde, amarelo, paetês, colares, chapéus absurdamente engraçados... Gritam, tocam cornetas, reunem-se em bares numa histeria coletiva e focam naquilo que é o que mais importante no momento: futebol. Eu também assisti ao jogo de hoje mas antes disso fui ao mercado comprei cerveja, pipoca, batatas chips e criei um ritual pra colocar meu personagem em cena. Gritei, briguei, ri, engasguei... Com muita cerveja. Porque testemunhar esse espetáculo de cara limpa, não dá. Sinto muito. Não dá. Até domingo.

domingo, 13 de junho de 2010

Uma certa amiga


UMA CERTA AMIGA



(Dedicado á grande amiga D. Gabriela)


Ela conta muitas piadas. Morre de rir das histórias picantes que lhe contam e reclama um pouco da falta de memória para um desejado repertório maior de casos pra contar. Sua postura diante da vida é digna, inteira, elegante e, sobretudo, verdadeira.

Critica as pessoas que atribuem a Deus os dissabores da vida. Revolta-se com aquelas que esperam que a divina providência resolva seus problemas existenciais, financeiros, amorosos. Sua capacidade de raciocínio matemático é de dar inveja. Lê avidamente, livros, revistas, matérias científicas e expressa com muita clareza para os amigos suas idéias. Fala do passado com absoluta certeza de ter dado os passos certos para a construção do presente e futuro. Tem os pés no chão para perceber as dificuldades do dia a dia. Tem a alma leve para perceber os pequenos milagres da natureza, uma planta brotando, uma flor abrindo suas pétalas, a leveza do verde nas asas do vento em tardes amenas de outono.

Tive vontade de vê-la, visitá-la. Liguei para combinarmos uma data, horário. Ela concordou com um encontro à tarde. Mas só depois das quatro. Antes disso estaria ocupadíssima. Trabalhando? Não. No salão de beleza cuidando do cabelo e unhas. Encarei, nesse momento, meu lugar, tempo e espaço nesse mundo. Lembrei da minha idade. A que eu tenho de fato. A que eu acho que tenho. A que gostaria de ter. E me vi, radiante de felicidade observando os oitenta e oito anos da minha amiga Gabriela.

sábado, 12 de junho de 2010

Um texto de 2007


Percebo a vida de forma estranha. Meus passos ecoam no mundo e me trazem de volta, como um eco, palavras que ficaram lá atrás. Sonhos decapitados. Desejos mutilados. Sinto uma imensa tristeza ao perceber que meu mundo esteve caído e muito pálido. Me sinto só. Não lamento. Não há mais o que lamentar. Meu tempo é curto. As paisagens passam muito rapidamente. Minhas lágrimas estão sempre atualizadas. Meu sorriso, não sei. Estou imensamente triste. Abaladamente triste. Tenho vontade de rever, mas tenho um cansaço muito grande. Às vezes acho que perdi uma grande oportunidade. Engraçado... Outras vezes acho que estou ganhando o jogo. Ando cansada, com sono... Tenho sentimentos em vários dialetos. Continuo com vontade de sentar no chão e olhar a vida com paixão. Perceber o movimento louco do mundo, como as pessoas se estranham, enfim, beber cada gota de vida. Ando com saudades de mim. Essa é a verdade. Onde ando eu? Preciso viver a legitimidade dos meus desejos. Preciso libertar essa coisa que está presa dentro de mim. Não sei o que é. Mas está me arranhando por dentro. Preciso. Tem que ser agora. Não tenho mais tempo.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Vinho Branco Belvedere Bruno


Ontem foi dia de festa. Minha amiga irmã Belvedere Bruno lançou o seu primeiro livro solo: Vinho Branco Safra Especial de Contos e Crônicas. Nos conhecemos há muitos anos e essa veia artística sempre esteve presente em todos os seus gestos. Lembro de Bel ganhando concurso de melhor fantasia numa festa em Niterói onde reinava absoluta com sua irreverência e estilo único. As férias em Friburgo tinham mais sabor quando ela estava por perto. Engraçada, fazia piada de tudo e de todos. Sempre tinha uma história pra contar de alguém ou de alguma situação estranha que tenha vivido. Os namorados eram homenageados através de sátiras que sempre aumentavam nosso repertório de risadas. Embora tenha dado uma pausa, Bel sempre foi uma escritora.
Ontem fiquei muito feliz por fazer parte do seu círculo de amigos e poder brindar a produção literária dessa minha irmã. O livro é delicioso, faz a gente sonhar, sorrir, chorar, viver através de histórias do cotidiano, da vida. Uma grande contadora de histórias. Leve, simples, lírica, simplesmente Bel...